A Um Dia da Eternidade

Estrela inativaEstrela inativaEstrela inativaEstrela inativaEstrela inativa
 

Para onde vou não há retorno,

os ventos zunem nas distâncias,

nas lonjuras mais ermas.

Estou a um dia da eternidade.

Mas há ainda um ranger de dentes

das plenas rebeldias.

 

Teu amor não vem,

teu amor vem tarde,

como a paisagem da janela de um trem

já não vem.

Teu amor

amortece

na mesa vazia de um bar.

 

Esguia e bela,

somes nos nomes

que a paixão não traz.

 

O que bebo é vinho

e ventania,

loucura dos santos,

que se perderam na procura

do que nunca tive.

 

És bela,

o desejo é belo,

e basta.

Longe de casa,

eu moro na rua Lima e Silva,

em Porto Alegre,

no fim do mundo.

Só o coração compreende,

que a paixão não traz,

o barco da ternura jaz,

neste rio Uruguai

da minha vida inteira,

correndo para o Mar del Plata,

onde ainda se ata

a dor da vida e a dor da morte,

linho na bruma da manhã,

metade sonho, metade morte,

apenas um cesto de romã.

 

Um dia irei além do impossível,

serei ainda o barco de um só rio.

A nudez é plena,

a nudez da água navega.

Quem me conhece pensa que sabe,

mesmo assim, não sabe

da solidão da porta dos hospitais,

onde nunca entrarei.

Prefiro a morte súbita,

alma voando,

num repente,

um breve momento,

frente a Deus.

 

Tudo é solitude.

nos descampados da pampa,

minha lei e minha origem.

As flores crescem para além

dos muros da minha cidade,

liberdade

em tudo o que arde.

 

Sereio o que sonhei,

a mil anos daqui.

 

Serei,

como a pérola

que vive encantada

na sua concha,

no fundo do mar.

 

Irei ao mundo,

como fui um dia

à escola.

 

Só os deuses

entendem dormir

entre estrelas,

e acordar sem elas

e poder vê-las

em cada vão da tarde.

 

 

 

Luiz de Miranda

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